O século XXI finalmente chegou. Não para todo mundo mas chegou. Não aquele que imaginávamos lá atrás nos filmes de ficção científica ou
no desenho dos “Jetsons”, onde a tecnologia estaria inteiramente à serviço da praticidade e os dilemas do cotidiano permaneceriam ligados
aos bons valores sociais ou familiares. Simplesmente não evoluímos dessa forma. Não por falta de hardware, mas pelos frequentes
travamentos no software que deveria nos conectar uns com os outros melhorando a qualidade das nossas perspectivas.

As referências já não são as mesmas e as aparências não enganam não. Ainda somos os mesmos e vivemos desiguais, disfuncionais,
apartados não apenas pelo isolamento circunstancial imposto pela pandemia, mas, em particular, por uma polarização ideológica que tem
minado a capacidade de discutirmos nossos problemas em busca das soluções possíveis.

Não faz muito tempo isso acontecia nas esferas públicas de debate, onde um dia já fomos capazes de nos reunir à mesa para discutir e até
divergir respeitando pontos de vista uns dos outros em favor de um objetivo comum de convivência. Desde o princípio dos tempos, as pessoas
se reuniam nas suas casas, nas praças, nas cidades, para buscar consensos.

Na história das civilizações, foi essa vocação de sociabilidade que nos levou a construir cidades e coabitá-las com interesses afins. Foi nas
cidades que aprendemos a exercer a cidadania para falar da vida, discutir questões que dizem respeito à segurança, bem-estar,
conhecimento, compartilhamento de recursos, meios de subsistência, mediação de conflitos, e em última instância, buscar entendimentos que
influenciassem a governança. Assim organizamos os primeiros espaços de conversação em torno de agendas comuns.

Esferas públicas de debate marcaram a história da nossa civilização. Da infância nas Ágoras da Grécia antiga, à juventude das sociedades
liberais iluministas no século XVIII, à puberdade das conversas nos ‘salons e cafés’ do século XIX, à maturidade, com o rádio e a TV, no início
do século XX, e o avanço da internet, no final do mesmo período. Foi no espaço das cidades que aprendemos formar opinião pública e
defender causas de interesse coletivo.

O século XXI chegou confirmando todo o cenário de “sociedade em rede” já descrito na obra do sociólogo espanhol Manuel Castells,
virtualizando o debate com a difusão meteórica das redes sociais e dos meios digitais. Tecnologias que deram vida ao conceito de “aldeia
global” antecipado pelo filósofo canadense, Marshall McLuhann, democratizaram o acesso à informação e conectaram indivíduos por todo o
planeta, mas também levaram o debate público para dentro de novas esferas virtuais, gerenciadas por algoritmos que, ao invés de ampliar,
concentram discussões outrora públicas em “bolhas ideológicas”, gerando mais dissenso que consenso. Parece que ninguém se entende mais.

Nunca foi tão importante retomar as rédeas do debate público e coletivo. Quis o destino que nos confrontássemos com esse dilema justo no
ano em que nos afastamos uns dos outros em razão da pandemia mais letal da história da nossa civilização. É bem provável que tenhamos
que escolher prefeitos e vereadores em 2020 ainda sob efeito desta pandemia. E é nesse contexto que se faz mais importante voltar a reunir
as pessoas privadas, em ambiente de acesso público para discutir questões privadas publicamente relevantes, como já afirmava o filósofo
alemão Jürgen Habermas em seu Mudança estrutural da esfera pública.

Quando o livro foi publicado pela primeira vez, lá pelos anos 60, informação de qualidade ainda era privilégio das esferas públicas literárias,
“coffee-houses, salons e comunidades de comensais”. Hoje, o problema é a infodemia generalizada que confunde muito mais do que informa.
Tirar a hegemonia dos grupos de WhatsApp e Telegram no desenvolvimento de discussões que interessam a todos, e não apenas a um nicho,
pode ajudar a romper o ciclo vicioso que tem levado à eleição sistemática de governos minoritários em todas as instâncias. Superar esse
desafio poderia reempoderar cidadãos a encontrar caminhos e escolhas mais consensuais no que se refere ao futuro de suas cidades.

Se o uso que damos à tecnologia é uma escolha, quando bem utilizada, ela ajuda a aproximar pessoas com diferentes visões intelectuais, e
democratiza o acesso a uma infinidade de informações que antes eram restritas a pequenos grupos. Informação de qualidade, quando circula,
derruba barreiras, convicções ideológicas que não se sustentem em fatos, e reestabelece a esfera pública de debate – virtual como o zeitgeist
nos propõe – mas ajudando a resgatar o papel do contraditório na busca pelo entendimento, e em detrimento da polarização que não leva a
lugar nenhum.

Ainda há muito a se aprender com a crise sanitária. Se ela nos impõe restrições em reocupar fisicamente os espaços públicos de debate,
também estimula um novo conceito de ‘Ágora virtual’, cujo alcance só se limita pelas condições de inclusão digital de cada localidade.
Estes novos espaços vêm sendo ocupados por eventos como o Inovacity 2020, por exemplo, um fórum digital que se propõe a conectar
pessoas, startups, empreendedores, hubs de inovação e o poder público em torno de discussões sobre o futuro das cidades. Participar de
iniciativas como essa significa retomar as rédeas do debate, sugerindo um olhar mais sustentável sobre questões da maior importância como
Urbanismo, Transformação Digital, Inclusão, Mobilidade, Gestão e Governança. O Inovacity será transmitido gratuitamente via YouTube, nos
próximos dias 22 e 23 de julho.

Garantir acesso uniforme do país ao século XXI pressupõe a atualização do nosso sistema de valores e princípios com discussões que
substituam o individualismo e a indiferença pela empatia e disposição de mudar. Essas são reflexões essenciais para um país que, este ano,
escolherá prefeitos e vereadores em 5.570 municípios, mas que vem limitando o alcance das suas opiniões a nichos digitais fechados de suas
próprias redes.

Não dá mais para agir com indiferença em um país onde 100 milhões de pessoas ainda vivem sem coleta de esgoto, 35 milhões sem água
potável, 46 milhões não são alcançados por programas sociais, 12 milhões estão oficialmente desempregadas, 13,5 milhões abaixo da linha de
pobreza, 11 milhões vivem em favelas, e outros 11 milhões não sabem ler ou escrever. Esses são só alguns dos muitos indicadores que
afetam o futuro das nossas cidades e deveriam interessar a todos. Não apenas para que possamos entrar de vez no século XXI. Mas porque
isso é a base de tudo que entendemos por sustentabilidade.

* Rafael Veras é executivo de comunicação, marketing e reputação institucional. É associado da Makemake e integra o comitê gestor do
Inovacity 2020.