A cidade do futuro é uma construção coletiva. Não há como esperar que as cidades se tornem inteligentes se os próprios cidadãos não se dispuserem a contribuir com suas inteligências para criar um ambiente melhor para todos. Na nova edição do INOVACITY Talks, conversamos com Carmen Migueles, diretora na Symbállein Consultoria e professora pesquisadora da Ebape/FGV, sobre as práticas e os desafios de transformação que podem levar a um futuro melhor para as nossas cidades.

Entre importantes casos de sucesso que se valeram da gestão participativa para modernizar cidades no Japão e na Alemanha, entre outros exemplos, Carmem ilustra bem a relação direta entre cidadania e progresso. Em contraste com a realidade nacional em que nos acostumamos a esperar respostas da política, de cima para baixo, sem nos esforçarmos pela transformação “bottom-up”, a dica é investir na consciência coletiva.

“Para melhorar a política é preciso melhorar o cidadão. Isso consequentemente, melhora a visão empresarial, e quando todos pensam na mesma direção, é a cidade quem sai ganhando”, reflete Carmen. E é desse consenso coletivo pelo interesse público que nascem as representatividades propositivas, mais propensas a trabalhar em favor de regramentos que interessem a todos, criando proteções contra os oportunistas.

Foi o que aconteceu em Tóquio, no Japão, por exemplo, que, nos anos 80, sofria com o trânsito, excesso de poluição, muitas habitações construídas em madeira, de fácil combustão, entre muitos outros problemas solucionados em relativamente pouco tempo. Carmen, que viveu em Tóquio naquela época não vê toda essa transformação como mero resultado de investimentos financeiros, mas de uma imensa vontade coletiva de transformar. O governo criou regras fáceis de planejamento urbano, envolveu a academia, os cidadãos, a iniciativa privada para chegar a um modelo de expansão que interessasse a todos.

E como se chega a esse nível de consenso? “Elinor Ostrom, Nobel de Economia de 2009 estudou mais de mil comunidades no mundo todo tentando entender as principais diferenças entre aquelas que prosperaram e que não prosperaram. Ela identificou que aquelas que não prosperam são as que tem sistemas de patronagem muito arrigadas”, explica. “O sistema de patronagem cria comportamento oportunista que é a tentativa de se apropriar do interesse público ou do interesse do outro com gula. É a definição acadêmica de oportunismo. O que nós temos nas nossas cidades é uma tentativa de apropriação privada do interesse público. E ela é mais grave quanto mais pulverizado ou subordinado é o cidadão. Cidades que prosperam são aquelas que conseguem neutralizar esse oportunista por meio do adensamento da colaboração horizontal, ou seja, ocupando os espaços de poder e debate”, raciocina.

Por isso é tão importante debater os problemas das nossas cidades e como podemos resolvê-los. Coalizões determinadas a evitar a apropriação política e privada dos debates permitem neutralizar oportunistas melhorando a qualidade da coordenação horizontal, da comunicação e da confiança. Da mesma forma, uma participação mais cidadã das empresas contribui para a gestão pública com melhores ferramentas de governança, mecanismos de transparência, e visão de produtividade. Mas tudo começa com as pessoas. É a cidadania que muda as coisas.

E você? O que acha? Como você usa a cidadania a favor da sua cidade? Baixe aqui o podcast e deixe seu comentário.